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quinta-feira, janeiro 19, 2012

Gloom - Rocklab Sessions

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Desacelerado e com um suave tempero blues na guitarra da vocalista Niela, o Gloom até que rende bem.




























quarta-feira, janeiro 18, 2012

Luiz Caldas + Banda Uó

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Não me perguntem o que eu achei.



Eu não saberia dizer.





























terça-feira, janeiro 17, 2012

Do The Evolution (III)

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"Evolution is a mystery...




... Full of change that no one see's."






























Um Recado do Max

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segunda-feira, janeiro 16, 2012

Autores, Atores e Belos Dramas - 10 anos depois

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Ano passado o Casa Bizantina comemorou o décimo aniversário de seu segundo álbum, Autores, Atores e Belos Dramas. Pra marcar a data, na época, eu rabisquei umas linhas sobre o assunto mas, mea culpa, o texto acabou esquecido no fundo do agá-dê. Porém, ignorando a falta de timing, resgato agora a lauda que celebra um dos discos mais importantes do rock/pop goiano, 10 anos mais velho, mas ainda com muito a dizer. Siga a letra:


Feita a 4 mãos, a capa foi ilustrada
por Luiz Antena e colorida por Juliano Moraes.



PRIMEIROS VOOS


Em 2001 o mundo assistia atônito ao despertar de uma velha guerra, reeditada pelo terror que explodiu, ao vivo, em televisores de todo o planeta. Mas a notícia lateral, desviando o assunto para o rock goiano daquele mesmo ano, era o segundo disco do Casa Bizantina. E não dá pra dizer que Autores, Atores e Belos Dramas estivesse alheio ao seu contexto histórico, já que filtra a geo-política e a religião na poética coloquial que pariu, por exemplo, o refrão de “Brasileiro”: “Nós vimos GOD, ALÁ, meu Deus! Todos desconstituídos.”


"Minha Liberdade" - Casa Bizantina

Mesmo sendo a primeira assinatura forte do Casa Bizantina, AABD não disfarçou as então novas preferências do grupo, e influxos de Lenny Kravitz e Red Hot Chili Peppers ajudaram a dissipar a onipresença incômoda d’O Rappa, cuja influência direta fez limite com a simples imitação em seu primeiro álbum, DDD – Divertindo, Distraindo, Destruindo (1999). Presente em todas as faixas do disco, o diálogo entre referências nacionais e estrangeiras é encapsulado pela versão reggae de “Completamente Blue”, do Cazuza, que se não acrescenta nada à original, também não chega a comprometer.


"Primeiros Voos" - Casa Bizantina


Basicamente ignorado pelo establishment do rock goiano e a despeito de suas falhas de gravação (um bom exemplo é o som da bateria), Autores… encontrou eco em ouvidos menos especializados e ganhou sua maior audiência entre um público majoritariamente feminino e não necessariamente roqueiro. Mas o senso pop que adoça a melodia é rebatido por um discurso que emenda reflexões históricas (“Ônibus Sentado Num Índio”):

O metalismo inconsequente
A calça azul que vem do continente
Isso é apenas o que aconteceu
Isso foi só o que sobreviveu


Para, em seguida, romantizar o cotidiano (“Absorvente”):

Eu vou sair

Vou comprar absorvente

Para descolorir a dor

Do meu amor delicadamente


Lançado no mesmo ano em que o extinto e cultuado Hang The Superstars confirmou, com o EP Still Addicted, a fama de Goiânia como capital brasileira do rock de garagem, AABD foi vítima da polarização estética que o título trouxe consigo, que afastou dois mundos até então nunca muito distantes e inverteu a lógica dominante para expurgar quase tudo que não fosse distorcido e barulhento.


"Vapor Barato" - Casa Bizantina + Jards Macalé


Felizmente o fenômeno não se desenvolveu entre os produtores mais espertos, que ainda mantiveram o Casa Bizantina em alguma atividade, já que pouco tempo depois a banda entrou em uma longa hibernação só quebrada por alguns poucos shows de divulgação de seu terceiro disco, Estado Natural (2005), e por aparições bissextas. Ano passado o grupo saiu da toca mais uma vez para gravar seu quarto álbum, O Seguinte Dia Fabuloso (ainda não lançado), o que, pelo histórico, sinaliza uma volta meteórica aos palcos, seguida de mais um longo período de inatividade.



Mas esse é um assunto para a década que vem.


























Time to Get Away - O Fim do LCD Soundsystem

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Dirigido por Dylan Southern e Will Lovelace, Shut Up And Play The Hits conta a história do fim do LCD Soundsystem, cuidadosamente programado por James Murphy, seu líder.



Registrando os últimos dias de atividade de uma banda no auge, o filme também vai aos bastidores e ao palco do show de despedida, que aconteceu em abril do ano passado no Madison Square Garden - em NY, e teve quase quatro horas de duração.



Shut Up And Play The Hits deve chegar aos cinemas (gringos) nos próximos meses.





























domingo, janeiro 15, 2012

Soulfly em Goiânia

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Jungle people jungle
Never underestimate our power!



























sexta-feira, janeiro 13, 2012

Do The Evolution (II)

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I am the first mammal to make plans, yeah!





















Um Artista do Interior








quinta-feira, janeiro 12, 2012

SUCESSÃO

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Depois que eu voltar
de dentro das molduras
apago os meus retratos
invento outras figuras


convoco os meus fantasmas
convido mil demônios
e dou posse a todos eles
no governo dos neurônios.










Um clássico do Pio, que morreu de pó aos 26.

























quarta-feira, janeiro 11, 2012

Uma Coisa de Cada Vez

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the number of the beats 2011/23

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Três Cabeças Loucuras, o último do São Paulo Underground, não facilita. As melodias oblíquas e o ritmo fraturado só fazem sentido para ouvidos treinados.




A versão paulistana da Chigago Underground Orchestra (grupo de formação livre fundado pelo trompetista Rob Mazurek nos EUA), chega ao terceiro disco expandindo o experimentalismo esperto de Sauna: Um, Dois, Três (2006) e The Principle of Intrusive Relationships (2007).


"Just Lovin" - São Paulo Underground


Em Três Cabeças Loucuras, o destaque vai para a suíte "Just Lovin", cuja cadência angulosa é atravessada pelas belas interferências do trompete.



























terça-feira, janeiro 10, 2012

Tudo de novo

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A meia dúzia de leitores que acompanha isso aqui deve ter percebido o abandono do blog durante as duas últimas semanas, começando pouco antes do Natal e terminando no fim da tarde de domingo passado.


No meio do nada, o culto dos animais.



É que aproveitando a deixa do fim de ano fomos, eu e a patroa, sair de férias e enterrar os pés na preguiça. Seguimos de carro por centenas de quilômetros, grande parte dele em retas sonolentas, e pra espantar o sono fui revisando uns discos antes de passar a régua em 2011 e elaborar a lista de melhores do ano da casa.


Numa serra íngreme,
a publicidade equivocada:
"Vários modelos de túmulos".


Devido à vaibe da viagem, a predominância do repertório da ida foi de melodias festivas, e o dial on the road soou alto o naipe de metais do Bixiga 70, o groove lento e enfumaçado do Gui Amabis e a afro-MPBeat do Pipo Pegoraro.


Na rodovia, ultrapassando o rebote.


Lá, durante o descanso, dei uma chance pro novo do Bill Calahan, Apocalypse, mas embarcava tanto na calmaria das canções que sempre dormia antes de chegar à metade do disco. Me arrisquei também com as pirações de New History Warfare vol. 2: Judge, do Colin Stetson, saxofonista que acompanha o Arcade Fire e já trabalhou com gente como TV On The Radio e LCD Soundsystem, mas é fácil ter uma bad trip ouvindo aquilo lá.




Sem contar o Nó na Orelha, do Criolo, o Três Cabeças Loucuras, do São Paulo Underground, o Junk of the Heart, do Kooks, o Volume 3, do Caldo de Piaba, e o Setembro, do Junio Barreto, que também foram hit do meu verão.


Mas depois da folga a programação volta ao normal. Pelo menos por enquanto, já que em 2012 o grnews deve passar por uma boa reforma. Mas isso é papo pra depois.


Feliz ano novo procê também.
























segunda-feira, janeiro 09, 2012

the number of the beats 2011/22

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Taxi Ímã, segundo disco do Pipo Pegoraro, não esteve entre os álbuns mais comentados da nova-MPB, mas mesmo assim é um dos melhores títulos dessa "turma" lançados em 2011.




Em "Sofia", as discretas influências do afrobeat vêm à tona e se encaixam num violão incidental, nas guitarras de notas curtas e em versos lacônicos.




























the number of the beats 2011/21

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Não sei se a atmosfera tecnobrega da introdução de "Super Duper Rescue Heads" é consciente de suas origens...



... mas o fato é que a faixa (ao lado de "Secret Mobilization"), salvou Deerhoof vs Evil, décimo disco do Deerhoof.



























domingo, janeiro 08, 2012

the number of the beats 2011/20

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Escoltado pelos eternos zumbis Pupilo (na bateria) e Dengue (no contrabaixo), Junio Barreto convidou gente como a cantora Céu, o pianista Vítor Araújo e o guitarrista Gustavo Ruiz, entre outros, para seu segundo disco, Setembro.




Sua faixa título é também o seu primeiro single e carrega, a reboque da lírica dividida entre um coloquialismo inventado e uma discreta erudição emepebista, as melodias mais distintas e instigantes da lista de 10 canções do álbum.

























segunda-feira, dezembro 19, 2011

Um Artista do Interior

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Na última edição de 2011 da revista Soma eu assino (em parceria com a fotógrafa Uliana Duarte) uma matéria sobre o Moacir, artista plástico que provoca por instinto e sem qualquer afetação metropolitana, nativo da vila de São Jorge, interior de Goiás e ponto de partida para as paisagens mais exuberantes da Chapada dos Veadeiros. Lá no site da revista, o número 26 tá todo disponível, mas pra multiplicar os canais repliquei aqui também o perfil excêntrico do Moacir. Siga a letra.





Subversão Naïf


Alheio ao mundo das artes, Moacir confirma de um jeito bastante especial a máxima junguiana de que “Pintar aquilo que vemos diante de nós é uma arte diferente de pintar o que vemos dentro de nós”. Mais que uma frase de efeito, a citação que abre o longa-metragem de Walter Carvalho, Moacir Arte Bruta (de 2006), é a senha para tentar entender o artista que vive em uma casa pequena na vila de São Jorge, distante cerca de 36 km de Alto Paraíso, epicentro turístico da Chapada dos Veadeiros, interior de Goiás.


Fotos deste post: Uliana Duarte


Depois de uma negociação telefônica arrastada, que passou por três intermediários até a confirmação da visita (primeiro com Juliano Basso, agente informal do artista e produtor do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros; segundo com a Tila, membro da ASJOR – Associação dos Moradores da Vila de São Jorge; e por último com Elisênia, irmã de Moacir), cheguei ao vilarejo no fim de um sábado e acertei o encontro para a manhã do dia seguinte. No domingo fui recebido na casa-ateliê por Moacir, sua mãe – já em idade avançada e visivelmente senil –, e Elisênia, que monitora de perto o interesse do grande número de admiradores, compradores, jornalistas e curiosos que procuram seu irmão.




Obcecado pela anatomia feminina, onipresente em uma profusão distorcida de vaginas enxertadas na parte mais significativa de seu trabalho, a primeira impressão que o artista deixa é a de que vive num universo particular com poucas intersecções com o mundo real. As paredes da sala da casa onde mora com a mãe são pintadas com cenas que misturam erotismo e religião, fotos de mulheres em posições ginecológicas e montagens em que retratos dele mesmo interagem com as genitálias de papel. Do lado de fora, a fachada exibe painéis nos quais santos convivem com funerais em série e pornografia hardcore.




Moacir cresceu na vila ao lado de oito irmãos, mas revelou um talento proporcional à excentricidade de seu comportamento. Já no nascimento, segundo lembranças dos pais, revelou pistas físicas de uma condição que se confirmaria singular: o bebê tinha pequenos “brincos” de pele pendurados no pescoço. Na falta de condições adequadas, a solução sertaneja foi arrancar os apêndices indesejados com um nó de cordas finas enrolados ao redor de cada um deles. E na primeira infância as pistas seguiram fortes, como confirma sua mãe, ao revelar que o filho recusou a amamentação.

Experimentou os primeiros rabiscos com um pedaço de carvão aos 7 anos de idade e desde então nunca mais parou, apesar de não ter estudado (“Só fui na escola um dia, aprendi só o ABC”) e de ter passado pelo garimpo, onde conta que sofreu muito. Durante a adolescência, Moacir evitava a companhia da maioria dos moradores da vila e, quando na presença de alguém, só desenhava debaixo de um cobertor, se esticando de lá de dentro para revelar o resultado. Em crises mais agudas reclamava da “catinga de gente” e procurava abrigo solitário no mato, onde se escondia por horas. Já no começo da vida adulta construiu um rancho de palha no terreno dos pais, e assim se poupou também da presença cotidiana dos numerosos familiares.




A despeito de tudo isso (e de um pouco mais), sua família garante que exames psiquiátricos minuciosos nada encontraram de defeituoso em sua cabeça e que, embora mantenha um comportamento estranho e em certa medida antissocial, Moacir leva uma vida comum, fazendo suas próprias compras, pagando contas e definindo ele mesmo o preço de suas obras, acompanhado da irmã somente porque, segundo ela, sua dicção fanha e embaralhada dificulta o entendimento das outras pessoas.


Moacir dialoga com o mundo em seu próprio idioma, e não se furta o direito à vaidade, nem esconde o prazer em exibir sua obra. E, mesmo respondendo com monossílabos pouco inteligíveis, abre uma pasta com os trabalhos mais recentes e se põe a mostrar desenhos coloridos com giz de cera, ao mesmo tempo em que a irmã se desculpa pela “pouca” quantidade de material, contando que no fim de semana anterior receberam a visita de um editor carioca e de uma marchand de Goiânia que, com a intenção de lançar um livro sobre as pinturas do irmão, compraram grande parte do acervo disponível. Enquanto investigo o farto conteúdo da pasta, Moacir já está plugando a câmera na TV, ansioso por mostrar também seus caóticos vídeos. Gravados ali mesmo, dentro de casa e ao redor dela, os vídeos registram não só os desenhos que enfeitam as paredes (que são constantemente apagados e recriados), mas um discurso frenético que oscila entre uma espécie particular de apocalipse religioso, autoafirmação e repúdio à implicância da pequena vizinhança. Ora em off, ora gesticulando diante da câmera fixa no tripé, Moacir repete seus adágios obsessivamente, sempre falando de si na terceira pessoa: “O mundo tá cheio de mulher!”, “Moacir é um grande artista, o homem mais importante de São Jorge!”





As sequências são tremidas e desordenadas e o discurso é circular, como num mantra bizarro que muitas vezes assusta o turista desavisado que passeia diante de sua casa. Surdo de um ouvido, Moacir mantém a TV em volume alto, e a falação pouco compreensível sempre provoca reações em quem não sabe do que se trata. Já no fim do dia, aguardando do lado de fora o fim de mais uma sessão de fotos, sou interpelado por um casal de curiosos que me pergunta o que é tudo aquilo. Tento explicar, mas mesmo diante do esclarecimento os dois saem murmurando algo sobre satanismo, impressionados pelos pictogramas demoníacos e pelas cenas de sexo oral com facas. Logo que me despeço do casal, Moacir coloca somente a cabeça para fora da porta e me chama, fazendo movimentos rápidos com a mão: “Você veio de avião?” Respondo que não, mas ele aponta uma aeronave que ainda faz barulho no horizonte e repete: “Você veio de avião?”




De volta ao interior da casa, diante da TV que agora mostra uma sequência na qual Moacir está particularmente agitado, Elisênia sorri e explica que na ocasião da gravação o irmão estava bêbado, e que a cerveja é um de seus hábitos diários. Quando questionado sobre a recorrência de mulheres nuas em seus desenhos, Moacir deixa escapar um sorriso tímido, abaixa o olhar e desconversa, ainda monossilábico, enquanto a família conta que ele nunca viu uma mulher pelada de perto, sugerindo que o artista de 58 anos obcecado por santos, demônios e vaginas é virgem. Ao ver o desenho inacabado de uma figura de semblante plácido, barba e cabelos longos, pergunto se é Jesus Cristo. Ele nega enfaticamente, dizendo se tratar de uma figura “que vem e vai, mas que se rezar desaparece”.

E, se o aparente contexto psiquiátrico e a insistente temática religiosa de seus trabalhos forçam uma comparação de sua obra com a de Arthur Bispo do Rosário (que produziu a maioria de suas cerca de mil peças dentro de um manicômio), o ponto central que os separa reside na firme negação do caráter artístico que o finado artista carioca impôs à sua produção, atribuindo-lhe uma conotação messiânica, de “obra da salvação”. Moacir se orgulha do título de artista e, imerso numa liberdade desconcertante, trata a doutrina cristã como um exercício de conveniência: num momento atribui um apocalipse iminente à “falta de oração do povo”, explicando que só se salvará do fim-do-mundo quem morar em casas redondas, e logo em seguida desdenha a prática religiosa, vinculando uma carga francamente negativa aos preceitos beatíficos.




Intercalando curtos períodos de isolamento voluntário (em que recusa qualquer convívio, se abstendo da pintura ou pintando somente capetinhas), e a produção periódica (“um desenho todo dia”), agora Moacir coloca outro vídeo em que gravou a própria TV exibindo o menu principal de Moacir Arte Bruta, o filme do Walter Carvalho. Mas o pintor não quer falar sobre o cineasta. Segundo sua irmã, depois de finalizadas as gravações do filme, o diretor nunca mais apareceu, nem enviou uma cópia do documentário ao seu protagonista, o que deixou Moacir bastante decepcionado. Para assistir ao filme na época de seu lançamento, ele teve que viajar até Brasília, e a única cópia que mantém em casa ganhou no ano passado de um de seus muitos admiradores.




Assim que cada vídeo termina, Moacir troca rapidamente os mini-DVDs que selecionou para nos apresentar. Ele acaba de dar play em outro de seus discursos embriagados diante da câmera, dessa vez com a latinha de cerveja na mão. Reclama aos berros da vizinhança fofoqueira: “O inferno tá preparado pra quem fala da vida do Moacir!” Num encontro casual na noite anterior, Juliano Basso havia me narrado um dos inúmeros episódios da peleja do artista com os vizinhos, quando Moacir pintou capetinhas em vários postes da vila, sendo rapidamente repreendido pelos demais moradores, que apagaram os desenhos. Depois disso ele passou a acordar de madrugada para repintar os capetinhas apagados, numa guerra silenciosa com a pequena vizinhança.




Hoje, porém, o talento recusado pelo temor religioso dos moradores de São Jorge começa a correr o mundo das artes e, se a cópia de um desenho é vendida pelo próprio artista por vinte reais (os originais saem por R$ 250,00), em galerias seus quadros já atingiram a cotação de 5 mil reais, e os compradores internacionais garantem que parte significativa de sua produção seja exportada.

Ainda com a TV ligada, agora debruçado sobre a mesa, o artista desliza o giz de cera preto sobre uma folha branca, de onde rapidamente surge a imagem de um santo segurando um peixe enorme. Intimidado pela câmera, ele levanta a cabeça somente para rápidas espiadas na televisão, que novamente mostra sequências desfocadas da fachada de sua casa. Enquanto escolhe as cores para dar acabamento ao desenho, pergunto se gosta de ver TV, ao que ele resmunga um “Gosto não! Só quando tem bichaiada”. Só entendo o que ele quis dizer depois que Elisênia me socorre, explicando que o irmão reclama dos tipos humanos da televisão e gosta mesmo é dos documentários de vida animal ou simplesmente de imagens de bichos, apesar de deixar o aparelho quase sempre ligado, mesmo prestando pouca atenção a ele.




De repente ouço uma porta da casa batendo, por dentro. Aponto de onde vem o barulho e Moacir, a princípio, parece não entender, mas logo toma uma atitude: tira um molho de chaves do bolso e destranca a porta, libertando a mãe. Em seguida, abre um sorriso maroto: “Ela tava dormindo”.

Moacir não acredita em Deus, mas faz questão de embutir um apêndice preventivo em sua declaração de ateísmo: “Não acredito não, mas nunca fiz mal a ninguém”. Em outra passagem de sua conturbada relação com os vizinhos, a polícia local mandou o artista apagar os desenhos de mulheres peladas das paredes externas de sua casa. Moacir o fez, mas substituiu os nus por cenas violentas, em que policiais eram assassinados a facadas.

E é equilibrando seus impulsos artísticos entre o que vê diante de si e o que se impõe desde dentro de seu universo particular que Moacir intriga o mundo das artes, transformando com uma técnica tão primitiva quanto vigorosa um cotidiano interiorano prosaico em uma obra de impressionante força gráfica, cujas interpretações exteriores têm infinitamente menos importância que os significados íntimos que respondem, de fato, somente ao seu inevitável instinto de criar.