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segunda-feira, janeiro 16, 2012

Autores, Atores e Belos Dramas - 10 anos depois

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Ano passado o Casa Bizantina comemorou o décimo aniversário de seu segundo álbum, Autores, Atores e Belos Dramas. Pra marcar a data, na época, eu rabisquei umas linhas sobre o assunto mas, mea culpa, o texto acabou esquecido no fundo do agá-dê. Porém, ignorando a falta de timing, resgato agora a lauda que celebra um dos discos mais importantes do rock/pop goiano, 10 anos mais velho, mas ainda com muito a dizer. Siga a letra:


Feita a 4 mãos, a capa foi ilustrada
por Luiz Antena e colorida por Juliano Moraes.



PRIMEIROS VOOS


Em 2001 o mundo assistia atônito ao despertar de uma velha guerra, reeditada pelo terror que explodiu, ao vivo, em televisores de todo o planeta. Mas a notícia lateral, desviando o assunto para o rock goiano daquele mesmo ano, era o segundo disco do Casa Bizantina. E não dá pra dizer que Autores, Atores e Belos Dramas estivesse alheio ao seu contexto histórico, já que filtra a geo-política e a religião na poética coloquial que pariu, por exemplo, o refrão de “Brasileiro”: “Nós vimos GOD, ALÁ, meu Deus! Todos desconstituídos.”


"Minha Liberdade" - Casa Bizantina

Mesmo sendo a primeira assinatura forte do Casa Bizantina, AABD não disfarçou as então novas preferências do grupo, e influxos de Lenny Kravitz e Red Hot Chili Peppers ajudaram a dissipar a onipresença incômoda d’O Rappa, cuja influência direta fez limite com a simples imitação em seu primeiro álbum, DDD – Divertindo, Distraindo, Destruindo (1999). Presente em todas as faixas do disco, o diálogo entre referências nacionais e estrangeiras é encapsulado pela versão reggae de “Completamente Blue”, do Cazuza, que se não acrescenta nada à original, também não chega a comprometer.


"Primeiros Voos" - Casa Bizantina


Basicamente ignorado pelo establishment do rock goiano e a despeito de suas falhas de gravação (um bom exemplo é o som da bateria), Autores… encontrou eco em ouvidos menos especializados e ganhou sua maior audiência entre um público majoritariamente feminino e não necessariamente roqueiro. Mas o senso pop que adoça a melodia é rebatido por um discurso que emenda reflexões históricas (“Ônibus Sentado Num Índio”):

O metalismo inconsequente
A calça azul que vem do continente
Isso é apenas o que aconteceu
Isso foi só o que sobreviveu


Para, em seguida, romantizar o cotidiano (“Absorvente”):

Eu vou sair

Vou comprar absorvente

Para descolorir a dor

Do meu amor delicadamente


Lançado no mesmo ano em que o extinto e cultuado Hang The Superstars confirmou, com o EP Still Addicted, a fama de Goiânia como capital brasileira do rock de garagem, AABD foi vítima da polarização estética que o título trouxe consigo, que afastou dois mundos até então nunca muito distantes e inverteu a lógica dominante para expurgar quase tudo que não fosse distorcido e barulhento.


"Vapor Barato" - Casa Bizantina + Jards Macalé


Felizmente o fenômeno não se desenvolveu entre os produtores mais espertos, que ainda mantiveram o Casa Bizantina em alguma atividade, já que pouco tempo depois a banda entrou em uma longa hibernação só quebrada por alguns poucos shows de divulgação de seu terceiro disco, Estado Natural (2005), e por aparições bissextas. Ano passado o grupo saiu da toca mais uma vez para gravar seu quarto álbum, O Seguinte Dia Fabuloso (ainda não lançado), o que, pelo histórico, sinaliza uma volta meteórica aos palcos, seguida de mais um longo período de inatividade.



Mas esse é um assunto para a década que vem.


























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