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segunda-feira, junho 22, 2009

Geração Think Pink

" Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis; da pior espécie. Meu credo: seja bela e consumista."

Lolita Pille


Todos os amigos alfabetizados pra quem eu mostrei, empolgado, Hell Paris – 75016, depois de passearem o olhar pela capa obviamente viraram o livro pra ler a sinopse acima. Depois de um ou dois segundos TODOS levantaram a cabeça com um olhar confuso e inquisidor, ao que eu me obrigava a responder: “Não, não tem nada a ver com a Bruna Surfistinha.”


Apesar de Hell... não ser novidade nenhuma mais, e de que minhas últimas lembranças sobre o assunto terem sido causadas pelo ensaio fotográfico/entrevista que sua autora, a francesinha Lollita Pille, fez para a revista Trip em 2005 (e por ter assistido, e até gostado, da adaptação do livro para cinema), só no mês passado é que me vi tentado a comprar o pequeno tomo.


“Eu escrevo para mim. Depois para os banqueiros. Depois para os leitores”
Lolita Pille, sobre suas motivações literárias.


É claro que não fui à livraria atrás de Hell.... “Claro” porque até então eu, mergulhado na minha costumeira soberba de almanaque, tinha certeza de que se uma ninfeta parisiense milionária não poderia ter muita coisa a dizer, teria menos ainda a escrever. Na verdade estava procurando ou o Conversas com Woody Allen, do Eric Lax (que, como não achei, deixei pra comprar depois – o que só aconteceu na semana passada), ou qualquer um do Nick Hornby que ainda me faltasse.


Depois de botar o Frenesi Polissilábico debaixo do braço estava praticamente decidido a levar também o Seis Contos da Era do Jazz, do Franz Scott Fitzgerald, mas, não sei explicar bem porquê, enxerguei um brilho fosco num volume na prateleira ao lado. Demorei alguns segundos para acionar a memória e me lembrar do que se tratava. Olhei para o Fitzgerald e me envergonhei por cogitar desprezar os clássicos por causa de uma coqueluche pop tardia. Convencido ao contrário pela minha própria patrulha besta, botei o Fitzgerald de volta na prateleira e levei a Lolita pra casa.


Sou o símbolo manifesto da persistência do esquema marxista, a encarnação dos privilégios, os eflúvios inebriantes do Capitalismo. Como digna herdeira de gerações de mulheres da sociedade, passo muito tempo na boa vida cobrindo de esmalte as minhas unhas; folgada tomando banho de sol; com a bunda sentada numa poltrona com a cabeça entregue às mãos de Alexandre Zouari, ou olhando vitrines na rue du Faubourg-Saint-Honoré, enquanto vocês passam o tempo todo trabalhando para pagar as porcariazinhas de que precisam.

Sou o mais belo produto da geração Think Pink: meu credo: seja bela e consumista.

Mergulhada na loucura policefálica das tentações ostentatórias, sou a musa da deusa Aparência, em cujo altar imolo alegremente todo mês o equivalente ao que você recebe como salário. Sou francesa e parisiense, estou me lixando para o resto; pertenço a uma única comunidade, a mui cosmopolita e controversa tribo Gucci Prada – a grife é meu distintivo.

Sou um pouquinho caricatural. Confesse que você me acha uma tremenda babacona com meu visual Gucci, o sorriso branco de louça de banheiro e os cílios de borboleta. Mas é engano seu me subestimar, essas são armas ameaçadoras e é graças a elas que vou descolar mais tarde um marido que seja pelo menos tão rico quanto papai, condição sine qua non desta minha existência tão deliciosa e exclusivamente fútil.

Visto que trabalhar não faz parte da longa lista de meus talentos. Quero me divertir com eles, e basta. Da mesma forma que mamãe e vovó antes de mim.



É dentro desse panorama adoravelmente detestável que a narrativa se desenvolve, sem trama, substituída pela descrição habilidosa de um eterno presente de prazer sem limites, onde aparentemente a única saída é servir-se de sexo banal e abusar do poder ilimitado do dinheiro: seguir saboreando o doce vazio do excesso.


A juventude dourada parisiense, sustentada pela genética financeira dos mais tradicionais clãs franceses, pelo tráfico de armas e de prostitutas do leste europeu, ou até mesmo pelo triunfo idealizado do capitalismo – o sucesso do trabalho duro, é descrita como um exclusivo clube de niilistas petulantes, que mesmo não conseguindo ignorar suas próprias e bizarras contradições internas agem como se o mundo e a humanidade fossem o playground de suas existências ocas, enxergados do alto de seus reluzentes Porsches e Ferraris.


"O que chamamos de amor é apenas o álibi consolador da união de um perverso com uma puta!"


E foi impressionado que descobri em Hell – Paris 75016 algum misterioso parentesco estilístico com um dos meus livros favoritos, o fantástico Um Copo de Cólera, do Raduan Nassar, que é de uma elegância verborrágica, cáustica e cínica, tão envolvente quanto sobrecarregada. Os poucos parágrafos transcritos ali em cima dão uma pequena idéia do que estou falando. A franqueza crua que Lollita Pille empresta a Hell/Ella, sua protagonista semibiográfica, é de uma sofisticação literária que antes eu só conseguia atribuir aos, como o próprio Raduan nomeou, “Grandes Indiferentes”: quase sempre homens, invariavelmente inteligentíssimos e adultos há muito tempo.


Porém, outra comparação, essa quase obrigatória, traz à superfície da memória o 100 Escovadas Antes de Dormir, da italianinha Melissa Panarello, que foi lançado na mesma época de Hell... e tira o jet set teen parisiense do foco, mas choca igualmente pela sinceridade brutal de um texto assumidamente confessional. Ainda que não possua o mesmo requinte cruel e desesperado de Lolita, dona de um lirismo convulsivo bem mais charmoso.

"Temos um cartão de crédito no lugar do cérebro, um aspirador no lugar do nariz e nada no lugar do coração!"


Mas antes de admitir que Hell... é mesmo uma história muito bem contada, quis disfarçar um certo despeito, desconfiando da autoria da obra e especulando se uma adolescente de dezenove anos poderia mesmo ter escrito um texto tão convincente, mas cruzei a internet inteira atrás de alguma suspeita parecida, fucei em revistas de literatura da época do lançamento do livro e até pensei em inventar alguma teoria conspiratória maluca, mas tive que reconhecer a nobreza da escrita de Lollita Pille, tão bem traduzida em sua precoce, elaborada e venenosa estreia.


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Um comentário:

Bok@o disse...

Como diria a banda MERDA: um show de horrores e diversão.