Boa parte do apelo da Gal Costa é fruto do bom-gostismo, essa abstração que vitima a classe média brasileira. Não importa que a voz da cantora esteja desgastada e que, às vezes, ela não disfarce certa displicência. A turba que lotou ontem o Centro de Cultura e Eventos da UFG não estava lá para apontar a decadência da maior cantora do País.
Mas mesmo com o resgate preciso de jóias passadas como “Barato Total” e “Deus é Amor”, não dá pra ignorar a aspereza de sua voz nas notas mais difíceis, nem deixar pra lá certa negligência no encaixe do vocal com o instrumental, esse sim afiadíssimo. Como cânone da MPB, Gal parece gozar de imunidade crítica e recebeu os aplausos calorosos de um público café-com-leite de sorriso aberto.
De seu último disco, Recanto, ela tirou o momento mais emocionante do show – a canção-manifesto “Autotune Auterótico”, mas veio de lá também a passagem mais maçante do concerto, com “Neguinho”, tentativa canhestra de atualizar seu repertório com uma batida eletrônica que já nasceu velha.
Não foi um show ruim, tampouco foi ótimo. Mas apesar do carisma legítimo, Gal Costa se esforçou apenas para atingir a média, e isso é muito pouco.

