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segunda-feira, julho 14, 2008

O Que é Que Tem na Caixa-Preta?

# Depois de quase uma semana sem botar os pés na web (?), por causa de uma fortíssima crise alérgica que prendeu o blogueiro à cama (e ao controle remoto), o amigo aqui ensaia um tímido retorno à tela do Goiânia Rock News, já que ainda se encontra convalescente, mesmo que quase recuperado. A internação doméstica se deu por uma intoxicação medicamentosa aguda, que provoca verdadeiras queimaduras nas mãos, pés e, cúmulo das maldades, nas mucosas. Passei a última semana administrando picos de fome e dor, já que comer com os lábios/língua queimados não é tarefa fácil. Mas agora já está (quase) tudo bem, e agradeço ao carinho dos amigos e amigas que se preocuparam com a saúde temporariamente debilitada do titular deste blog que você ora lê. Obrigado!





# Um dos melhores discos do pop brasileiro de dois mil e oito saiu outro dia e você deve ter visto o show dele no último Bananada. Se não viu, perdeu. Eu já tinha ficado bastante impressionado com a apresentação do Curumin no festival, tanto que escrevi aqui mesmo, na época, ter sido dele o melhor dentre os quarenta e dois shows da programação. Desde então tenho ouvido Japan Pop Show sem parar, e deu pra perceber que a intenção do músico que, sem querer, resgata o orgulho do samba paulista, é seguir aquela tradição atávica de João Donato, Jorge Ben e Marcos Valle, que apesar de tantos “discípulos” atuais anda tão maltratada.


E tradição, nesse caso, deve ser entendida como aquela ginga flexível e permutável das nossas grandes parabólicas: raízes fincadas em terreno verde-amarelo, mas com o olhar voltado para o mundo, um bate-papo do samba paulista com todos os estrangeirismos que valem a pena.


Com Japan Pop Show Curumin, inclusive, dá mais sentido ao seu álbum de estréia, o mediano Achados e Perdidos, de dois mil e dois. Depois da abertura instrumental com cara de trilha-sonora, Salto No Vácuo e Joelhada, e de Dançando no Escuro, um trip-hop de sotaque soul na voz do convidado especial Marku Ribas, Compacto é o primeiro grande momento de um disco abençoado. Filha direta do balanço despreocupado de Jorge Ben, em letra e ritmo, Compacto vem colorida com os timbres, gravões e filigranas de estúdio do R&B americano, enquanto o quase-frevo Magrela Fever mistura riffs de guitarra com as tremulinas elétricas do ritmo pernambucano, contornando os vocais com pitadas sábias de uma insuspeita cafonice psicodélica.


Kyoto é a faixa mais caleidoscópica de um álbum tão plural quanto coerente. Misturando elementos do dancehall jamaicano, funk carioca e soul norte-americano com beats e texturas da música eletrônica européia moderninha – fundida sob um discurso tão panfletário quanto irônico – Kyoto, que conta com participação duo californiano Blackalicious e do rapper Lateef the Truth Speaker (filho de integrantes do grupo de militância negra Panteras Negras), consegue a façanha de ser a canção mais bem acabada de um disco cheio de jóias preciosas, ancoradas em lembranças fortes de George Clinton, Tony Bizarro e Beastie Boys (além de reminiscências opacas da brejeirice vocal de um Odair José da vida).


Japan Pop Show, a faixa-título, originalmente era o nome de um show de calouros dominical, na verdade uma espécie de karaokê, apresentado por descendentes de japoneses na tevê brasileira dos anos oitenta. E honrando sua ascendência nipônica com a reverência merecida, Curumin celebrou suas recordações de infância diluindo aquelas referências distantes de uma cultura japonesa que ansiava pelo diálogo com o mundo pop ocidental e transmutou tudo em um improvável suíngue samba-rock de pronúncia japonesa.


Mistério Stereo reza na cartilha de pepitas quase perdidas do soul brasileiro, como o Carlos Dafé e o já citado Tony Bizarro, e a vinheta Saída Bangú despedaça e se reconstrói baseada em samplers de Revendo Amigos, de Jards Macalé e Waly Salomão. Mal Estar Card, apesar do ranço do discurso anti-capitalista, vem adornada pela participação especial do toaster jamaicano Cristopher Lover, e se perde pelo proselitismo ingênuo da letra, compensa sua singeleza lírica com grooves pra lá de venenosos.


Caixa Preta, com participação de B-Negão e Lucas Santana, talvez seja a música mais emblemática de Japan Pop Show. Num cenário funk-electro cheio de melodia de gafieira, Curumin trata de escândalos políticos e acidentes aéreos com a mesma acidez bem-humorada que acompanha todo o disco, mas, principalmente ao vivo, a canção assume ares de mantra de uma rebeldia rejuvenescida, aparentemente desinteressada em doutrinas prontas e movida pela curiosidade primitiva de saber o que está acontecendo á sua volta.


Para reafirmar sua genealogia japonesa, Sambito divide idiomas entre o Japão e o Brasil (com participação especial do skatista Tommy Guerrero), Esperança ensaia uma adeus alegremente melancólico típico do samba-canção, e Fumanchú encerra o álbum de fato, numa despedida instrumental donatiana que acena feliz para quem atravessou Japan Pop Show de uma ponta à outra. Seriíssimo candidato a melhor disco brasileiro em dois mil e oito. Os próximos meses dirão.




# No começo de agosto vou pôr o show do Curumin à prova novamente, dessa vez em Cuiabá, dentro da edição dois mil e oito do festival Calango. Também pela segunda vez assistirei lá, com cuidado e carinho, às apresentações do Cérebro Eletrônico e do Do Amor, já que da primeira vez o santo não bateu (apesar das boas expectativas que sempre nutri pelos dois nomes). Meu “medo” é o de que a apresentação do Curumin ofusque de novo os shows desses novos queridinhos da crítica paulista, que se dividem entre projetos pessoais e a banda de Caetano Veloso.



Mallu Magalhães

# A Mallu Magalhães, o fenômeno indie-folk paulistano que do alto de seus quinze anos de idade quase pôs abaixo o teatro Pyguá na última edição do festival Bananada, deve entrar em estúdio hoje, dia quatorze, para começar a registrar seu primeiro álbum. A produção musical caberá, incrivelmente, ao mega-produtor brasileiro Mário Caldato Jr., que já botou sua cara em trabalhos de notáveis da categoria de Beastie Boys, Marisa Monte, Planet Hemp, Mundo Livre S/A, Bebel Gilberto, Beck, Blur, Björk, Moby, Soulfly, e até do Technotronic (além de uma tonelada de outros), mas que impressionou a garota-prodígio foi mesmo com um trabalho seu para o lendário e longevo bluesman John Lee Hooker.


Provavelmente serão gravadas doze canções, todas autorais, e o disco propriamente dito deve alcançar as prateleiras dos shoppings e as banquinhas dos festivais em setembro, mas aposto um par desses dedos que vos digitam se (todas!) as músicas não apareçam boiando na web antes disso.




# O inacreditável trio instrumental cuiabano Macaco Bong será o segundo nome na lista da gravadora Trama Virtual para o projeto álbum virtual, onde lançamentos inteiros são disponibilizados gratuitamente e em boa qualidade para os visitantes do site, e o artista é remunerado segundo uma cota de patrocínio, ocupada em banners na página dos downloads. O estreante nessa nova prática foi o eterno vanguardista mala-sem-alça Tom Zé, com seu Danç-Êh-Sá – Ao Vivo, e agora o Macaco Bong bota seu Artista Igual Pedreiro para jogo.


Artista Igual Pedreiro foi oficialmente lançado em Goiânia há alguns meses (onde também foi gravado), num dos melhores shows que a cidade viu em dois mil e oito, e se você ainda se permite desconhecer o conteúdo dessa bolacha, vá se internar. No dia dezoito próximo, sexta feira, a Trama Virtual vai fazer colocar o disco ao seu alcance, e assim você sai da enfermaria. Não dê bobeira, esse é, provavelmente, o melhor disco do pop nacional desse ano!





# Vou ali ouvir o novo ao-vivo do Muse pra ir aquecendo os ouvidos, afinal daqui a pouco os três ingleses estarão bem na minha frente (e de mais algumas dezenas de milhares de humanos) cometendo um dos shows mais esperados do Brasil, em dois mil e oito.


# Depois que me recuperar cem por cento dessa maldita crise alérgica volto aqui pra te dizer por que o Viva La Vida or Death and All His Friends, o novo do Coldplay, vale tanto a pena. Enquanto isso vou mergulhando no turbilhão onírico minimalista do Með suð í eyrum við spilum endalaust, último da maravilha islandesa Sigur Rós e dando umas orelhadas na nerdice tardia e irritante do mais recente do Weezer, o Red Álbum, aquele mesmo de Pork and Beans, canção cujo vídeo-clipe é o mais irritantemente auto-referente do nerdismo virtual de toda a Internet.






É isso, até mais.



5 comentários:

Ariela Samede disse...

o show do Curumin foi o melhor do Bananada mesmo. discão!

Anônimo disse...

Mallu magalães de novo, tá ficvano chato issu

Anônimo disse...

O melhor show foi o da Malluzinha sim, esse curumim é muito podicrê, além do mais num gostod e carioca

Danilo Arruda disse...

sabe ler não ô analfa?: o cara é de são paulo. SÃO PAULO! ele não pode ser carioca sendo de São paulo, entende isso?

fora isso Japan Pop Show é crasse demais, sou fã há muito tempo do curumin.

Agora nunca dei conta do Macaco Bong, nem da Mallu Magalhães e nem desses outros hypes tipo vanguart e Foorgotten Boys.

gabriela munin disse...

melhoras desse restinho de alergia!!


falando em pork and beans, já viu a versão tosca do nx zero? tem lá no meu blog. :)