Analytics:

terça-feira, agosto 19, 2008

Porão do Rock!

# Por dois dias inteiros, no despertar de agosto, Brasília voltou a ser a capital brasileira do rock. Pelo menos para as dezenas de milhares de humanos que enfiaram a mão no bolso e de lá tiraram alguns poucos trocados (os ingressos estavam realmente baratos: R$ 10,00 a pista, e R$ 30,00 o camarote) para garantir presença no estacionamento do estádio Mané Garrincha, e de lá poder conferir cada uma das quarenta e duas bandas escaladas para os três palcos do festival.
.
.
Black Drawing Chalks
.
.
.

“Conferir cada uma” é modo de dizer, já que além da maratona impossível, o palco Pílulas não calava seus alto-falantes nem quando algumas das maiores atrações, lá num dos dois palcos principais, roubava quase que toda a atenção do mar de gente, e deixava pouca (ou nenhuma) audiência para o picadeiro-acessório. Aliás, conferir as atrações do palco pílulas era quase um exercício de fé, já que para chegar até lá era preciso atravessar uma imensidão de adolescentes com bandanas na testa (na sexta feira), e uma descomunal aglomeração de teens com roupas coloridas e penteados suspeitos (no sábado). E se o palco Pílulas ficava longe demais dos outros dois para permitir um deslocamento confortável dos esforçados que faziam questão do “rodízio” de shows, estava perto o suficiente para competir com o som dos outros palcos, e obviamente levava desvantagem. Além disso, o pessoal da pista não parecia lá muito satisfeito com a distância da grade que os separava da arena principal.


Depois da inauguração oficial dos trabalhos com o baticum metaleiro da carioca Sayowa e dos stand-up comedies da turma heavy metal – das bandas Vougan e Almah, acabei “perdendo” os quatro shows da seqüência, mas depois de subir e descer as escadas várias vezes, cheguei a tempo para o show da paraense Madame Saatan, que com a presença de palco lasciva e voz poderosa da vocalista Sammliz, escoltada por um instrumental tão pesado quanto bem-acabado, fez a melhor apresentação de uma noite que ainda teria Suicidal Tendencies como atração-principal.


Madame Saatan

.

.

Mal o Madame Saatan deixou o tablado, e o MqN, no palco ao lado, deu início ao seu tradicional desfile bilíngüe de palavrões, e apesar de mastigar um repertório com poucas novidades, o poder de fogo do quarteto ainda tem um calibre respeitável. Breakin’ Crystal Stones, música nova e dona do melhor momento do set list, insinua um suingue cardíaco e tenso, sobrecarregado nas linhas de baixo e com riffs de guitarra tão pesados quanto sensuais, conectando o MqN ao lado mais dançante do Grandfunk.


No começo da noite, a também goianiense Black Drawing Chalks havia tomado posse do palco pílulas, e mesmo que o público ainda não fosse exatamente uma multidão se acotovelando, o rock veloz e discípulo de Corrosion of Conformity do conjunto conseguiu atrair a atenção de muita gente. Aliás, a BDC, que tem viajado com freqüência pelo circuito indie nacional, é dona de um dos melhores discos do rock goiano de 2007 (Big Deal).


No segundo dia de festa, depois de, sem querer, deixar passar curiosidades como o projeto-encontro de Gabriel Thomaz, do Autoramas, com o pessoal do Móveis Coloniais de Acaju, batizado Vai Thomaz no Acaju (que foi a segunda atração do palco principal), quem mais chamou a atenção do sábado pré-Muse, foi mesmo o grupo titular de Gabriel, que apesar da pecha de maior nome do independente brasileiro, assume uma postura de “banda grande” e recebeu da enorme caravana amontoada, uma reação mainstream, com direito aos célebres gritinhos histéricos, acenos frenéticos e centenas de lentes digitais apontadas em sua direção.


O Mundo Livre S/A é o último bastião de um movimento corroído pelo tempo e pela depauperação estética de seus “seguidores” pós-manguebeat, mas ainda é capaz de grandes momentos em cima de um palco, e mesmo que o discurso socialista-pop de Fred 04 seja cada vez mais anacrônico, sua música permanece viva e dotada de um frescor tão genuíno quanto universal. O MLS/A brinca com maneirismos regionais que conseguem capturar, com a mesma naturalidade, elementos do pop e do punk, sem forçar a barra, nem soar como qualquer tentativa rançosa de resgate da tradição.


Depois de a Pitty mais uma vez “causar” no backstage, durante a coletiva que deu ao lado de Fred 04 (deixando a turma do colegial, colada na grade do lado de fora, pra lá de emocionada e reagindo instantaneamente a qualquer mínimo aceno da moça), e levar consigo quase metade dos jornalistas ao deixar a sala de imprensa às pressas, pronta para assumir o palco, eu fui procurar algo pra comer. Estava morto de fome àquela altura.

Muse
.
.
.
Por volta da meia noite e meia, o Muse aparece no palco e toma para si a multidão de aproximadamente vinte mil pessoas. Knights of Cydonia estoura nos ouvidos enquanto Matt Bellamy observa o mar de gente pular. O Muse já não pode mais ser acusado de ser mera derivação do Radiohead, e o grupo aparentemente faz questão de se distanciar da pecha mergulhando cada vez mais fundo numa receita singularíssima que envolve, em proporções perfeitas, heavy metal, dance e electro-pop oitentista, indie-rock, e rock progressivo.
.
.
Seguiram-se Hysteria, Dead Star e, numa explosão de êxtase coletivo, Supermassive Black Hole criou a maior pista de dança do planalto central. Lá na frente, depois da grandeza épica de Invincible, o trio ensaia uma introdução Bossa-Nova para Time is Running Out e se despede com Plug In Baby.


Depois de desencontrados pedidos de “Bis!” e “Mais um!”, o grupoo volta ao palco e enumera Starlight, Stockholme Syndrome e Take a Bow, se despedindo sob violentos jatos de fumaça e uma chuva de dezenas de gigantescas bolas brancas atiradas do palco, que percorreram a superfície do mar de gente até serem estouradas e provocarem uma chuva prateada de papel picado, criando um belo efeito para o fim de uma apresentação apoteótica.


Mesmo sem trazer todo o equipamento cênico de seus tradicionais espetáculos, em sua primeira visita à América Latina, o Muse soube se comportar em palcos brasileiros, e cumpriu à risca a cartilha do pop-star gringo em território tupiniquim: aprendeu a dizer “obrigado” no camarim, e encomendou uma bandeira nacional e uma camisa da seleção do Brasil, “estrategicamente” deixadas sobre o bumbo da bateria, durante o bis.


De longe o melhor show da maior edição do Porão do Rock. Depois de boatos não-confirmados sobre Queens of the Stone Age e Black Crowes, o festival finalmente deu sua cartada certeira e, provavelmente, leva para si o título de festival independente mais importante de dois mil e oito.


.
.
.
# Mas por falar em festival mais importante, você já deve estar sabendo das novas atrações confirmadas para o próximo Goiânia Noise, né? O clássico grupo do underground escocês The Vaselines (que já encantou gente como Kurt Cobain – que gravou algumas canções do grupo com o Nirvana: Molly’s Lips, Son Of A Gun e Jesus Doesn’t Want Me For A Sunbean), vem acompanhado por metade do Belle and Sebastian – o guitarrista Stevie Jackson, o baixista Bobby Kildea e o baterista Richard Coldburn – fazendo às vezes de banda de apoio.


Tudo bem que se a equação fosse invertida, eu estaria vos digitando essas linhas com bem mais entusiasmo, mas ainda assim não deixa de ser uma grande oportunidade para conferir a pequena lenda indie européia, extinta desde o começo dos anos noventa e recém-reformada, em ação.


As outras atrações internacionais já confirmadas para o GNF são, como você bem sabe: Circle Jerks (EUA), Black Mountain (CAN), Imbyra (USA), Black Lips (EUA) e Flaming Sideburns (Finlândia), além do eterno-Los Hermanos Marcelo Camelo, acompanhado pelo Hurtmold. Algumas outras bandas gringas ainda devem ser confirmadas, provavelmente algumas de nuestras hermanas latinas, argentinas e chilenas. É aguardar pra ver.


.
.
.
# Por falar em grupos argentinos, desde que voltei de Cuiabá, do festival Calango, que me martela aqui na cabeça um nome: EL Mato A Um Policia Motorizado. Conheci a banda já em cima do palco (o que tinha ouvido, de orelhada, não me chamara a atenção) e fiquei realmente impressionado. Fui ouvir os discos de novo e começo a entender o meu erro. Tudo bem que as gravações não façam, nem de longe, frente ao poder do conjunto ao vivo, onde o arrebatamento se dá numa profusão noise de lembrar os momentos mais chatos do Sonic Youth, com um poder melódico tão tocante quanto explosivo, de lembrar os melhores momentos de grandes melodistas como Teenage Fanclub e Nada Surf. Rock pulsante, barulhento e comovente. Na volta boto aqui um texto completo, contando tudo sobre o festival cuiabano.




# E o Violins acabou de novo. Como divulgado dias atrás, o dono de alguns dos melhores discos do independente nacional dos últimos anos, anunciou novamente sua aposentadoria precoce, e agora o negócio parece ser sério. Mesmo assim, para cumprir compromissos previamente assumidos, o grupo faz seu último show oficial na cidade de Brasília, na quinta feira, dia vinte e um, no espaço Brasil Telecom. Num papo online com o Thiago Ricco, baixista da banda, soube que Beto Cupertino, ele e Pedro Saddi devem assumir outro nome e, ao lado de um novo baterista, partirão do zero num novo projeto que pretende se distanciar da sonoridade criada pelo Violins. Alguns nomes já estão cotados para assumir as baquetas, assim que qualquer um deles se confirmar, você fica sabendo aqui nessa mesma tela.




# O Loaded, o melhor podcast do circuito independente nacional, está concorrendo ao Prêmio Podcast 2008, que vai laurear os programas mais ouvidos/votados. Você, leitor esperto, provavelmente já conhece (e gosta) da bagunça web-radiofônica aprontada pelos chapas Valter Resende e Alexandre Moreira, sempre recheada com novidades e pérolas do nosso cancioneiro pop. Portanto não disfarça, e clique aqui para gastar alguns segundos do seu precioso tempo de conexão para votar no Podcast dos rapazes. Por que eles merecem.



Devo ter esquecido de dizer algo, mas fica pra próxima. Volto já, pra falar sobre o festival Calango. Tchau!
.
.
.
.
P.S.: As fotos, humm, sui generis que acompanham a segunda parte deste post foram tiradas do ffffound.com por sugestão do amigo e colega blogueiro Ulisses Henrique, mistura de nerd com geek que sempre descobre coisas legais na web.

3 comentários:

Anônimo disse...

Suicidal foi muuuuito melhor que o muse, só os indies cults é que gostarão mais do muse, essa bandinha que keria ser heavy metal e num dá conta. cópia mal feita do radiohed, sem vergonha.

Anônimo disse...

O show do Muse foi o máximo do luxo. A-d-o-r-e-i! Esse Suicidal? Nem sei quem é. Não fui na sexta.

Carol Maia disse...

O show do Muse foi o máximo do luxo. A-d-o-r-e-i! Esse Suicidal? Nem sei quem é. Não fui na sexta.