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segunda-feira, setembro 10, 2007

Ofender e Transformar!

Debate
Fotos deste post:Renato Reis


Calango 2007


Em Cuiabá, ar-condicionado até em qualquer banca de revista. Não dá para dispensar o refrigerador numa terra em que os termômetros orbitam os quarenta graus. Assim, somente à noite a cidade se revela, de fato, para o turista ocasional. No caso, eu.


Ensaiei umas caminhadas vespertinas, pós-almoço, pela cidade, mas o sol queimava com tanta força, que me perguntei se deus não tinha algo pessoal contra esse pedacinho do planeta. Vai arder assim lá no inferno.


Como disse, qualquer banca de revista cuiabana tem um ar-condicionado trabalhando no máximo, e foi o refúgio mais óbvio para o turista incomodado. No caso, eu. Pedi a Rolling Stone nova (com aquela beleza da Grazi Massafera na capa), mas sabia que ainda não ia ter chegado, eu estava em Cuiabá, no centro-oeste, afinal. Solicitei o magazine só pra enrolar um pouquinho, poder dar uma olhada em volta e enxugar o suor que escorria em gotas rápidas na minha testa. Acabei comprando um número atrasado da Grandes Guerras, que estampava na capa uma chamada sobre a participação militar do Brasil na Segunda Guerra Mundial, e outra sobre a Segunda Guerra Púnica, quando Aníbal, o general cartaginês, perdeu a oportunidade de invadir Roma e mudar o rumo do ocidente. Comprei a revista e voltei derretendo para o hotel. Daí algumas poucas horas começaria o Calango 2007. Era sexta-feira e agosto se despedia mais uma vez.


Já no meio da madrugada, no show relâmpago da Debate – penúltima atração da noite –, a precisão cerebral, porém caótica, dos paulistanos se fez símbolo sonoro, dentro da minha cabeça de vento, para toda aquela energia racionalmente brutal das guerras. A coisa é pensada para ofender e transformar, mesmo que o preço seja atravessar o caos e enxergar beleza nele. O “discurso sonoro” do trio é surdo, não tem cognição quase nenhuma e nem é bonito, mas o aparente fractal matemático, ordenado e regido pelo Richard Ribeiro, fascina pelo mesmo motivo que a história das guerras atrai tanta gente: pela intensidade de fúria controlada e pela desatenção voluntária, e extrema, para com os regras praticadas pela maioria.


Assim foi o melhor show da primeira noite do festival.




Maldita

Antes deles e abusando daquela conhecida fórmula que vai do circo de horrores, com insinuações sado-masoquistas, ao enorme apelo que as caras-de-mau e afinações baixas tem junto ao público adolescente, a carioca Maldita havia reunido e incendiado a multidão diante do palco 2, logo depois da cuiabana Revoltz cometer uma das melhores apresentações da noite, numa desambição jovem-guardiana suada, espontânea e festeira.


Revoltz

Por falar em cara-de-mau, elas tiveram lugar garantido nos três dias de festival. No começo da noite, assim que pus os pés na arena, a também cuiabana Aoxin já exibia sua cólera púbere no palco 1, diante dos coleguinhas não menos “mal-encarados”. A despeito do pastiche pobre que vai do pop-core de CPM22 e congêneres, ao nu-metal descartável de linkin Park, o grupelho conseguiu atenção empolgada de um público ainda pequeno.


Depois deles a Unchronics, banda mais votada nas seletivas do festival realizadas em Goiânia, ergueu suas guitarras, cabeleiras e flanelões xadrez, num saudável momento anos noventa, que temperou a densidade melódica do grunge com o azedume quadrado do hard-rock setentista. Os Parkers, quarteto do vizinho Mato-Grosso do Sul, acionaram os clichês mais dançantes do punk-rock para animar a crescente platéia, que ensaiou a primeira rodinha de pogo do calango 2007, antecedendo a pretensa, e infeliz, piada psicodélica Johnny Alfredo e seus Neurônios Mongóis.


Fernando Prates, guitarrista da mineira Carolina Diz, ganha a vida no balcão de uma vídeo-locadora pornô em Belo-Horizonte, é fã confesso de Nick Drake e, acompanhado pelos amigos, protagonizou um dos bons momentos da noite, num re-processamento do lado mais introspectivo – porém não menos barulhento – da música pop, do Radiohead pra cá. Devotos do rock clássico, a local Cachorro Doido gastou seus cartuchos com mira de franco-atirador, esquentando o palco para as atuações da paraense Cravo Carbono, da acreana Camundogs e da cuiabana Chilli Mostarda.


Os Rockfellers não tiveram sorte, e o já problemático palco 2 se revelou um pesadelo para os goianos. O som que fugia dos P.A.s confundia baixo e guitarra com os vocais, enquanto a bateria se desequilibrava em cima de sua armação, e castigava o baterista Léo Rockfeller. Atrapalhado pela sucessão murphyana de acontecimentos, o quarteto deixou o tablado deveras insatisfeito, logo antes da Revoltz festejar com a massa no palco ao lado, como dito lá em cima.


Hellzen

Escalada para fechar a primeira noite do Calango 2007 ao lado dos uruguaios do Supersônicos, a Fuzzly, banda cuiabana radicada em São Paulo, não compareceu, e cedeu a vez para o thrash metal oitentista infanto-juvenil do Hellzen, que poderia ter se dado melhor, não fosse a precariedade do som do palco 2. Dando cabo da primeira noite de festival, os Supersônicos apresentaram seu power-pop surfista para os últimos resistentes, já perto das quatro da matina, enquanto a praça de alimentação da arena acolhia a multidão de desistentes famintos e o portão se despedia de uma fila interminável de humanos exaustos.


Fim do primeiro tempo.


***** **** *** ** *


# A grande Pata de Elefante está para lançar seu segundo disco, que provavelmente figurará no topo de muitas das listas de melhores do ano, que logo, logo começam a aparecer web afora. Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulha traz a genialidade instrumental de um trio mais amadurecido e com uma música ainda mais caudalosa, intensa e chapada, feito qualquer clássico do rock que se preze. Goiânia espera ansiosamente por mais uma apresentação dos gaúchos, que estiveram aqui pela última vez no Goiânia Noise do ano passado, e não satisfizeram por completo a sede de sua pequena legião de fãs com apenas meia-hora de show. Fique atento, a bolachinha deve aparecer nas lojas mais argutas (virtuais ou não) em outubro.


# # Para sentir o gostinho doce desse discaço que está para chegar ao mercado, aperte o play na janelinha aí embaixo e se delicie com um trecho da faixa título, gravado durante um show da Pata no Abbey Road Pub, em Porto Alegre:



# A estréia em disco da cuiabana Vanguart, encartada na última edição da revista Outracoisa, não me agradou mesmo, do que eu já desconfiava. Escutei com paciência e boa vonttade mas, apesar de alguns bons momentos – como Semáforo e Cachaça, a coisa gira em torno de um eixo saturado e pouco criativo. Já disse mais de uma vez, a melhor banda mato-grossense é um trio instrumental (assim como a melhor banda gaúcha), e ainda não lançou seu primeiro disco cheio.


# # Numa parceria entre o selo goiano Fósforo Records e o coletivo cuiabano Espaço Cubo, foi lançado recentemente A Marcha dos Invisíveis, terceiro disco da Terminal Guadalupe. O álbum afasta os curitibanos dos anos oitenta, foi lançado em SMD (Semi-Metallic Disc) acompanhado de um SMDV (SMDVideo), com o vídeo-clipe de Pernambuco Chorou, e seu making-off, e custa módicos treze reais. Depois falo mais sobre isso.



# A partir de sexta-feira, dia 14, acontece mais a terceira edição do Jambolada, festival lá de Uberlândia que integra a Abrafin e amplia a teia de ação da Fora do Eixo. Além da programação musical, a festa também reserva lugar para o já tradicional ciclo de debates, que contará com nomes como Pablo Capilé (Espaço Cubo –MT), Marcelo Domingues (Braço Direito–PR) e Rodrigo Lariú (Midsummer Madness–RJ).


# # Aí embaixo você confere a programação. Atenção para o Tom Zé, meio perdido ali entre os indies na sexta-feira, e para o Duofel, assobiando e olhando pra cima, no domingo. Grande sacada. ;)


JAMBOLADA 2007


14/09 | Sexta-feira
19:00 - Vandaluz (MG)
19:45 - Ácidogroove (MG)
20: 30 - Proa (MG)
21:15 - Falcatrua (MG)
22:00 - Juanna Barbera (MG)
22:45 - Tom Zé
00:30 - Los Porongas (AC)
01:15 - Vanguart (MT)
02:00 - Porcas Borboletas (MG)
02:45 - Daniel Belleza & Os Corações em Fúria (SP)


15/09 | Sábado
19:00 h – Um Bando e o Fim da Quadrilha (MG)
19:45 h - The Dead Lover's Twisted Heart (MG)
20:30 h - Super HI-FI (RJ)
21:15 h - Estrume'n'tal (MG)
22:00 h - Dead Smurfs (MG)
22:45 h – Mechanics (GO)
23:30 h – Supergalo (DF)
00:15 h - Superguidis (RS)
01:00 h - Antena Buriti (MG)
02:00 h - Nação Zumbi


16/09 | Domingo
12:00 h Gira Lua(MG)
13:00 h Duofel (SP)
14:00 h Makely Ka (MG)
15:00 h O Quarto das Cinzas (CE)
16:00 h Móveis Coloniais de Acaju (DF)



Tchau



3 comentários:

Dary Jr. disse...

Salve, Hígor. Tudo bem? Recebeu o e-mail? Seguinte: "A Marcha dos Invisíveis" é o terceiro álbum de inéditas do Terminal Guadalupe. O primeiro, "Burocracia Romântica - Trilha Sonora Original", é de 2003 e teve meus amigos da POléxia como banda de apoio. "Vc vai perder o chão", o segundo, foi lançado em 2005 e foi gravado pelo mesmo quarteto que concebeu o disco novo. Lucas Borba, nosso outro guitarrista, entrou depois da gravação da "Marcha" na Toca do Bandido, no Rio de Janeiro (RJ). Abraços.

Hígor Coutinho disse...

Dary, desculpa o equívoco, já corrigi lá. Obrigado pelo toque e pelas informações.

Recebi o mail sim. Em breve entra no blog um texto sobre 'A Marcha dos Invisíveis', áudio e vídeo.

Muito bom o show do Terminal em Cuiabá, parabéns!

Abraço

Iuri disse...

"Thrash metal oitentista infanto-juvenil"? Uma explicação para o termo seria boa, não? Principalmente o "infanto-juvenil". Esses pseudo-críticos e seus inseparáveis dicionários de rótulos vazio...