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quinta-feira, outubro 25, 2007

On videotape

  1. Dá uma mãozinha pro rapaz, ele é carente...




Mephistopheles is just beneath
And he's reaching up to grab me

‘Videotape’ – Radiohead



O Radiohead não é indie; o Radiohead não é rock; O Radiohead não é nem pop. In Rainbows, finalmente na praça desde dez de outubro último, incorpora de vez o conceito de canções eletrônicas, tão bem perscrutado e erigido em The Eraser, o genial disco solo de Thom Yorke, lançado no fim de dois mil e seis. Ainda ecoa, dissolvido no fluido sonoro, aquele experimentalismo misterioso e anti-musical radicalizado em Kid A e Amnesiac, mas In Rainbows também guarda conexões melódicas com seu antecessor, Hail to the Thief, no preciosismo decorativo das guitarras de Jonny Greenwood.


Os blips e tóins ornamentais de 15 Step abrem o álbum escancarando um intimismo mortiço, preenchido com texturas e loops maquinais, que contrariam a candura dolorida da voz frágil de Thom Yorke. Junto com Nude e All I need, descrevem um arco teso de onde se desprende mais daquela lisergia transparente e diáfana, que afasta o grupo cada vez mais dos seus milhares de imitadores.


Apesar da aparente artificialidade, os arranjos, filigranas e intenções se impõem com tanta força em meio à paisagem eletrônica, que o discurso sonoro do disco ganha uma universalidade orgânica tão grande que transcende rótulos moderninhos e deixa pouco – ou nenhum – espaço para etiquetas.




Weird Fishes/Arpeggi espalha uma indulgência oceânica por entre camadas de éter, enquanto Reckoner, talvez a melhor do álbum, enche um rio de angústia mal-calculada:


Because we separate
it ripples our reflections
Because we separate
it ripples our reflections




A “edificação” avaliada, elemento por elemento, que acaba por completar-se a si própria como canção, empresta ao disco um quê de arte concreta, onde o somatório medido de pequenas partes aparentemente desconexas, resulta num todo absolutamente particularizado, vivo e único.

Videotape se despede com a languidez anêmica dos vocais suplicantes de Thom Yorke, que mergulham numa fantasia apocalíptica, evocando até Mefistófeles (aquele que odeia a luz) em sua agonia onírica, fleumática e comovida.


Desde a explosão pop de OK Computer, as canções do Radiohead vem se tornando mais “líquidas”, e os arranjos cada vez mais diluídos por entre divisões cada vez mais etéreas. Não há nenhum hit blockbuster em In Rainbows, nada que vá seduzir nossas rádios – nem nossas mães, mas a intensidade e o poder de um disco como esse estão no tempo. É um álbum que pede tempo para se explicar, já que sua maior beleza está caprichosamente oculta na sutileza arranjada entre placidez, lirismo acurado e uma intrincada rede de ressonâncias eletrônicas.
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Aí embaixo o nobre leitor pode assitir a uma pré-versão de 15 Step, ao vivo em Copenhagen, em maio de dois mil e seis, mais de um ano antes do anúncio de In Rainbows. Naquela época muita gente ainda tinha esperanças de ver o grupo em palcos brasileiros.


Bem, a coisa não mudou tanto. Ainda hoje há milhares com essa expectativa. Play!


Um comentário:

rafael disse...

Discaço, discaço!!!