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terça-feira, junho 03, 2008

A Candura Castiça (ou Bananas For You All)

# O Bananada é o festival primo-irmão do Goiânia Noise, e tem como principal objetivo dar mais visibilidade para a produção independente local. Diferentemente de seu mano mais famoso, a festa volta seus holofotes para as bandas da cidade, e convida grupos de fora para coadjuvar alegremente com melhor do rock feito em Goiânia. A fórmula tem dado tão certo que na edição dois mil e oito a Monstro Discos, produtora do Festival, resolveu inventar e arriscou como headliners, duas atrações que você não vai ver em nenhum outro festival Brasil afora.
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Mechanics
Fotos deste post: r0cket
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Para fechar os trabalhos da sexta-feira, primeiro dia, a Mandatory Suicide foi arrancada das entranhas esquecidas dos anos noventa, e de volta à vida por quase uma hora inteira, relembrou alguns clássicos do underground goiano da década passada, numa ode rediviva que encaixou novamente a virtuose do Van Halen e a fúria do Pantera numa performance vocal que, caso você estivesse lá, te lembraria o Faith No More. A primeira música do set list, Just A Simple Comment, presente na última demo-tape (lembra delas?) Taste, Feel & Enjoy, foi a senha para que o teatro se enchesse da gente que, até então, passeava pela feirinha de fetiches pop, armada no pátio do Martim Cererê, e/ou engordava as filas da cerveja. Passeando, em medleys, pelas canções de Shout To The Crowd, seu principal registro oficial, o quarteto chegou ao cume nostálgico com Journey to the Center of Myself (também presente nessa última demo), espécie de hard-rock climático e progressivo, que fez muita gente sentir saudade da adolescência cheia de calças rasgadas, patches de bandas inglesas de outros tempos e de shows ao ar-livre na praça universitária.
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As apresentações da cuiabana The Melt e da paulista Sapo Banjo, também na sexta feira, passaram em brancas nuvens, culpa da avalanche de entrevistas que a maratona ininterrupta de shows sempre provoca. E o W.O. do redator também foi observado, no sábado, durante os shows da paraense Filhos de Empregada, e da catarinense ABesta; no domingo a ausência pôde ser percebida nas apresentações da brasiliense Fire Friend, da pernambucana Amp (que eu já havia visto alguns dias antes, na pré-festa do festival), da gaúcha Identidade e da lenda carioca A Grande Trepada.
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No domingo a farra de despedida ficou a cargo da outra aposta. A tal Banda da Eline, figurinha carimbada do rock daqui, acabou sendo uma grande e embriagada confraternização de músicos que, entre banhos de cerveja, instrumentos desplugados e muito pouco espaço livre no palco, recriaram vários “hits” do repértório roqueiro goiano. Entre tantas outras, músicas de Mechanics (Sex Misery Machine e Formigas Comem Porra), MqN (Heart of Stone e Burn, Baby, Burn) e Rollin Chamas (É O Sal) , mantiveram a eletricidade de um público ensopado de suor e cerveja, aparentemente despreocupado com os deveres da segunda feira que nascia.
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Sábado foi o dia de a cidade conhecer de perto o fenômeno indie mais comentado na internet brasileira, e a caravana desesperada que invadiu o teatro Pyguá aos tropeços estava disposta a reproduzir o frisson aprendido nas telinhas do Youtube, numa ovação tão surda quanto barulhenta (dando poucas chances às singelas e delicadas melodias que a Mallu Magalhães, sozinha diante da multidão, arrancava desajeitadamente de seu violão). A debutante mais famosa do pop nacional dispensou o melhor de sua simpatia envergonhada de adolescente, cantou suas músicas com um esforço genuíno e soube ignorar um chiclete atirado em sua direção, mas apesar de sua candura castiça e do contexto jogar a favor, ainda carece de aulas de violão, muitas horas de ensaio e de alguns aniversários, para se candidatar a um posto definitivo na história do novo rock brasilis.
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Do Amor
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Depois de abandonar o palco e voltar ao camarim, sempre acompanhada pelo pai vigilante, a jovem donzela folk atendeu a todos os jornalistas e/ou curiosos com a mesma atenção dedicada e o mesmo charme involuntário, e respondendo à minha pergunta sobre quais shows esperava ver no Bananada, disse que daria pra assistir pouca coisa, já que no domingo mesmo estaria num avião de volta à São Paulo, para responder presente na aula do primeiro ano colegial, na manhã de segunda feira. Dude Magalhães, o deslocado e orgulhoso pai, me garantiu que ou ele ou a mãe estão invariavelmente presentes nos shows da filha, e que aguardam o período das férias escolares para gravar o primeiro álbum da explosiva e prematura carreira da garota que rejeitou proposta de todas as grandes gravadoras do país.
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Apartados do hype, os também paulistas do Are You God? dispensaram o diálogo e a simpatia e ensurdeceram algumas centenas de humanos com recortes instrumentais matemáticos tão precisos quanto brutais. O grindcore tão rebuscado quanto extremo, incorporado à dramaticidade dantesca e autista do vocalista João, não se limitou a pregar somente para sua igreja, e arrancou elogios até de quem geralmente faz cara feia para a média das bandas do estilo. .
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Já o Curumin, cantor, compositor e multi-nstrumentista, fez o melhor show dos três dias de festival, seguido de perto, nesse ranking inventado, pelo seu conterrâneo Maurício Takara, do MTakara3. Curiosamente nenhum desses dois grupos mantém uma guitarra em suas formações, o que me levou à constatação de que alguma coisa está mudando (pra melhor) no horizonte da música independente brasileira enxergada por olhos goianos. Se num festival assumidamente de rock, as melhores surpresas não empunharam guitarras e não enfileiraram “riffs matadores”, o sinal é de que aquela ortodoxia rançosa do roqueiro medíocre está abandonando de vez a paisagem, dando lugar à descomunal diversidade que pulsa fora da eterna trindade guitarra-baixo-bateria.
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A música do Curumin é resultado de um encontro eletrônico inesperado e acachapante entre o balanço malandro daquele Jorge Ben de outros tempos com a marra grooveira do Beastie Boys, e o front-man baterista se acompanhou somente das programações e arranjos de um MPC (Music Production Center, uma mistura de sampler com teclado), a cargo de Loco Sosa – baterista do Los Pirata, um contra-baixo ocasional (sob o comando de Lucas Martins, baixista da cantora Céu e que também apertava botões num MPC), e de muita manha, para levar seu público ao delírio físico das pistas de dança. Divulgando seu segundo disco, Japan Pop Show, Curumin roubou a cena das jaquetas de couro, penteados suspeitos e paredes de guitarra, e sem pretensão nenhuma de posar com cara-de-mau arrancou rebolado até de quem “não deveria” se deixar seduzir pelo seu suíngue moderninho e bem ajustado.
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Dude Magalhães, sentado ao fundo,
observa de perto sua filha Mallu em ação
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Maurício Takara é mais conhecido pelo seu trabalho com o Hurtmold – onde atua como baterista, vibrafonista e trompetista, mas veio à Goiânia com seu projeto solo, intitulado singelamente MTakara 3, e que também dispensa a presença de guitarras no palco. O trio, completado pelo baterista Richard Ribeiro (ex-Debate) e pelo colega de Hurtmold Rogério Martins na percussão, desenvolve experimentos a partir de samplers e sintetizadores, que ganham corpo entre arranjos alucinados de trompete e saxofone, numa busca devotada pelo inusitado da música. O que muitos consideraram preguiçosamente como “cabecismo” infértil, dá pra batizar facilmente de inquietação genial, e ainda assim não seria a melhor explicação para uma apresentação tão sui-generis quanto impressionante.
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Os santistas da Big Nitrons fizeram uma espécie de aquecimento para a esperada apresentação d’A Grande Trepada, acendendo as turbinas da turma do topete. Se o punk rock pode conviver harmonicamente com a rockabilly e produzir centenas de cópias tardias e mal-criadas daquela ingênua e angustiada juventude transviada dos filmes de James Dean, o quarteto praiano também pode sobreviver sem a minha aprovação, já que em cima do palco não convenceriam nem o mais inchado dos sósias de Elvis.

A recifense Sweet Fanny Adams dispensa os tambores (tão comuns nas bandas de sua terra natal), e faz uma música tão tipicamente pernambucana quanto a primeira revolução industrial, agradando em cheio as centenas de caricaturas anglo–fashionistas (interessadas em postura shoegazer e atmosfera pós-punk) que desfilavam seus modelitos e cortes de cabelo na arena do teatro Pyguá.
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Ainda no sábado, o Cérebro Eletrônico e o Do Amor ficaram devendo ao burburinho, e mesmo estabelecendo um diálogo bailarino com a platéia, concordaram ao decepcionar quem esperava algo realmente impressionante. Antecipando esse desapontamento para a noite de sexta-feira, o pop carioca do Jonas Sá conseguiu pouco mais do que a (des)atenção condescendente de um teatro que aos poucos se esvaziava, numa apresentação instrumentalmente correta, mas desabilitada do veneno que o músico e sua banda só conseguem insinuar.
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A paulistana Fim do Silêncio soube se aproveitar do público descansado e entusiasmado do começo da festa, na sexta feira, e regeu a assembléia hardcore como quis, indicando inclusive em que direção o rodopio da rodinha de pogo deveria seguir. Já a goianiense Inbleeding se deixou afogar na erudição burocrática dos intermináveis solos do guitarrista Luiz Maldonalle, e acabou dividindo seu show entre a empolgação veloz do thrash metal e o dilúvio de notas agudas da “vídeo-aula” do solista.
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Are You God?
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A “lenda” ao redor do auto-intitulado Lendário Chucrobillyman não chegou até mim, e se todo mundo que assistiu a performance atrapalhada do curitibando que acumula as funções de guitarrista, baterista e cantor (simultaneamente), ficou tão impressionado quanto seus sorrisos deslumbrados indicavam, não há de ser eu quem vai desabonar esse embuste circense travestido de auto-suficiência artística.
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O Chimpanzé Clube Trio, apesar de não trazer nada de novo ao front, fez uma das melhores apresentações do sábado, distorcendo guitarras com um forte sotaque funk, e esticando uma ponte até o soul e a música brasileira, flertando sutilmente com o jazz. O Violins, atração principal da noite, convidou seu ex-guitarrista Léo Alcanfor (atualmente no Mugo) para a primeira parte de seu show, reservada apenas para canções de seu segundo álbum, Grandes Infiéis, e depois que o músico deixou o palco a banda se revezou entre faixas do anterior Tribunal Surdo e do recente A Redenção dos Corpos, guardando para o final apenas uma música do elogiado Aurora Prisma (23 Carnavais).
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Antes do Violins, o Diego de Moraes, a “nossa Mallu Magalhães”. O maior fenômeno do circuito independente local também aprendeu a se aproveitar do hype em torno de seu nome, e ajuntou uma pequena multidão para seu desbunde neo-tropicalista, que mistura cinismo e poesia concreta com a mesma naturalidade com que Caetano Veloso arrota seu cardápio de despautérios.
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De volta ao domingo, a Orquestra Abstrata (ex-Seven) se confirmou como uma das maiores promessas do rock instrumental goiano, com acesso livre ao rol das melhores bandas brasileiras do gênero. Depois do quarteto psicodélico, a paranaense de Curitiba Bad Folks gastou suas fichas numa apresentação tão simpática quanto tímida, num ajuste entre a singeleza melódica de Bob Dylan, e o tempero suave do country manhoso do Flying Burrito Brothers.
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As bandas donas da festa, MqN e Mechanics, fizeram, cada uma, sua festinha particular em cima do palco, e de posse das atenções serviram de exemplo para suas conterrâneas Bad Lucky Charmers, Mugo, Goldfish Memories, Jhonny Suxxx & the Fucking Boys, Gloom, Abluesados, Bang Bang Babies, Black Drawing Chalks, Motherfish, Sweet Racers, The Backbitters, Shakemakers e Necropsy Room, que também, cada uma a seu modo, tentaram convencer suas respectivas platéias de que Goiânia é mesmo a capital do rock independente nacional.
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Se você duvida, te espero pra uma bate-papo amistoso durante o próximo Goiânia Noise Festival.
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Combinado?




6 comentários:

Anônimo disse...

tu é um critico de bosta , deve ser um plyba qualquer recem formado em jornalismo botando mala nesse blog de merda !

Filhos de Empregada disse...

Oxente, aqui na paraíba o povo é tudo paraense, estranho pra caralho né?

r0cket disse...

fala rapaz,

acabei de postar algumas fotos de domingo q eu não tinha colocado..


http://www.flickr.com/photos/r0cket/

valeu

tati disse...

que mal humor hein, gostou de quase nada. mas pelo menos curtiu o Curumin e o Seven.

Ocride disse...

ô Higor, Malu Magalhães foi legal, vai, deixa de ser ranzinza

Anônimo disse...

Ô Cride, fala pra mae...