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quarta-feira, dezembro 02, 2009

Depois da invasão

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Se o número é cabalístico, eu não sei. E nem me importa. Nunca vi motivos para comemorar mais ou menos em virtude da convenção redonda de certos ciclos. Em todo caso, como diria o release do 15º Goiânia Noise Festival, “15 anos não são 15 dias”.


Feirinha no teatro de arena
fotos deste post: Goiânia Rock City

E o que o clichê repisado diz é que, cabalístico ou não, o número 15 ali confere ao festival a chancela do tempo, tão importante por que traz a reboque vários outros selos: um evento anual só chega tão longe, com a força que o Goiânia Noise tem hoje, estabelecendo um diálogo orgânico com a cidade e, consequentemente, tendo amplo respaldo de seu público.

O tempo também garantiu ao Noise, ano a ano, o título de maior festival independente do Brasil. Mas o “maior” da honraria diz respeito menos ao seu tamanho que à sua importância. Em dimensões físicas e quantitativas, o Noise não é o maior festival independente do País, mas é seguramente o mais influente. E talvez sua posição estratégica, tanto no calendário quanto no mapa, tenha favorecido o destaque: Goiânia se localiza no epicentro do território brasileiro, o que facilita o deslocamento de visitantes e bandas vindos de qualquer outra grande cidade. E o fato de ser o último grande festival do ano faz do Noise um grande ponto de encontro de produtores, bandas e jornalistas, que interagem tanto numa espécie de balanço anual das realizações do circuito, quanto nas projeções para o ano seguinte.


Em 2009, mais uma vez o Noise arriscou e se reformatou, apostando numa descentralização que é tendência no mundo, porém relativa novidade no Brasil. E apesar da tradição local da reclamação gratuita, a aposta foi um sucesso e integrou uma dúzia de clubinhos, teatros, cinema e galeria de arte, numa ação inédita que ocupou boa parte da vida cultural que interessa, transbordando o gueto e chamando a atenção inclusive de quem não acompanha essa movimentação independente de perto.

Onde mais, se não na programação de um festival de parabólicas abertas, o bruxo chato Hermeto Pascoal conviveria harmoniosamente com o hardcore humorista d’Oscabeloduro, e a dupla Violas de Bronze coexistiria pacificamente com a batucada indie da The Name?


Mas depois de cumprir sua nova agenda durante a semana, o Goiânia Noise Festival vestiu sua clássica roupa de gala, e durante todo o fim de semana fez do tradicionalíssimo Centro Cultural Martim Cererê o melhor endereço do Brasil para quem gosta de música.



Punch


Desfalcada pelo W.O. da atração principal da noite, o Supersuckers (que aparentemente preferiu passar o Thanksgiving Day em família), a sexta feira revelou sua primeira surpresa com o trio gaúcho Rinoceronte, cujo hard-rock chapado, barulhento e cantado em português soa como se o Casa das Máquinas (lembra?) tivesse ingerido algumas doses de anabolizante pra cavalo.


Dando mais uma olhada na programação, descobri que havia perdido o Glass and Glue, e me consolei com o fato de que minha curiosidade era menos musical do que sexual. Resignado, verifiquei que dali a pouco começaria um dos shows mais curiosamente esperados pela terceira idade do rock goiano.


Antes disso, diante da enorme fila do bar, fui roletar e descobri que o teatro de arena do Martim, há muito tempo relegado ao ostracismo, havia ganhado status de área VIP irrestrita, e também abrigava, além da feira de selos e lojinhas, outro boteco, com uma fila bem menor.


Cerveja gelada na mão e algumas fichas no bolso depois, não agüentei de curiosidade e fui assistir à passagem de som da Punch, a principal formação do rock goiano de sua época, ressuscitada e reunida exclusivamente para meia-hora de saudosismo da ala balzaquiana local.

Alçada à condição de estrela daquela cena incipiente do fim dos anos 90, a Punch era a banda mais requisitada de então, e mesmo que depois de 10 anos seu primeiro (e único) disco – Cesium 137 – soe algo entre ingênuo e datado, músicas como “Freedom” e própria “Cesium 137” tanto mexeram com o imaginário dos velhotes que se acotovelavam em frente ao palco, quanto injetaram adrenalina na corrente sanguínea da molecada que, inspirada pelo burburinho, se deixou reger pelo vocalista Íkaro Stafford, que de volta ao Brasil especialmente para a apresentação, soube capitalizar a emoção nostálgica dos trintões e a energia juvenil da nova geração.


Porcas Borboletas+Paulo Barnabé


Outra grande novidade da edição 2009 foram as dobradinhas, que reuniram num mesmo palco, na sexta feira, o Móveis Coloniais de Acaju com o trombonista Bocato, e o MqN com o Walverdes. No sábado, foi a vez do Porcas Borboletas convidar o Paulo Barnabé – líder da lendária Patife Band, e do Black Drawing Chalks chamar o ex-Forgotten Boys Chuck Hipolitho.


O Porcas Borboletas, por mais estranho que isso pareça, faz música cerebral para o corpo, e o cinismo artístico do Paulo Patife faz todo o sentido dentro da teatralidade caótica do show da banda mineira, que manteve o teatro Pyguá cheio e aplaudindo até o fim.


Mais tarde, novamente na fila da cerveja, esbarrei com mais um happening do Grupo Empreza, coletivo importado da FAV (Faculdade de Artes Visuais da UFG) pelo Márcio Júnior, para uma participação no show do Mechanics.

Já disse aqui que tenho uma enorme consideração pela obra do coletivo: considero suas performances tão interessantes quanto uma diarréia. Mas avalizado pelo fundador do festival, o grupo se sentiu à vontade para perambular pelo pátio do Martim e cometer suas bizarrices, que tentam disfarçar a velha cara-de-pau com um verniz que simula talento artístico pós-moderno: desta vez, uma dupla seminua, vendada e atada de costas por alguns metros de gaze, transitava perigosamente entre os transeuntes (e depois no próprio show do Mechanics).

Talvez no Pânico, ou no Hermes & Renato, fizesse algum sentido.


Mas, voltando ao lineup, depois de perder o show dos canadenses do Grimskunk (e de ouvir sérias repreensões por isso), saí do show do Porcas Borboletas direto para o do Confronto. Nada mais distante. Enquanto o grupo mineiro rege o caos com uma ironia de carga literária, o quarteto carioca faz jus ao nome e ignora sutilezas. Mas a violência hardcore de cada uma de suas músicas, entoadas em delírio por uma pequena multidão colérica e rodopiante, é fruto de uma precisão tão organizada quanto qualquer partitura de bossa-nova.


Espiei os suíços do Mama Rosín, no teatro Pyguá, mas o pop-folk do trio, apesar de simpático, não me comoveu. Meu último compromisso da noite era mesmo o Dirty Projectors, e então aproveitei a hora e meia que teria antes da banda novaiorquina subir ao palco, para atender ao gentil convite da Converse e (tentar) customizar um par de tênis, na tenda que a marca mantinha no pátio do Martim. Mas esta missão não foi exatamente bem sucedida, já que meus dotes gráficos são altamente questionáveis (pra não dizer medíocres). Mesmo assim, acho que quando receber o tênis montadinho, direto da Fábrica, vou achar divertido desfilar meu modelo toscamente exclusivo.


Stand da Petrobrás: Rockband!


Depois da recreação com tinta e pincel, fui buscar mais uma cerveja antes de procurar um lugar legal para assistir ao melhor show do festival. Apavorando o teatro lotado com sua faceta mais radicalmente experimental, o Dirty Projectors elegeu seu público pelo apreço esquisito por melodias habilidosamente entortadas, e só depois da primeira metade do show é que se permitiu revelar seu lado mais digerível.

Dividida ao meio por “Stillness Is The Move” – a canção que melhor revela os inacreditáveis superlativos vocais de Amber Coffman e Haley Dekle , foi na segunda metade da apresentação, depois que boa parte dos curiosos de ocasião haviam desistido da “barulheira” ininteligível, que a banda confessou seu DNA pop, tão bem oculto por trás dos dedilhados de precisão matemática, dos grooves abortados e do constante anti-clímax; ainda que o experimentalismo seja o norte de Bitte Orca – seu mais recente álbum, o DP também é hábil em moldar melodias ganchudas e inspirar dancinhas engraçadas.





“Temecula Sunrise” e “Cannibal Resource” (junto com “Stillness Is The Move”) já teriam valido a longa espera, mas o quinteto liderado pelo guitarrista Dave Longstreth estava satisfeito o suficiente para não se deixar abalar pelo calor crepitante do interior do teatro, e ainda voltar ao palco para um simpático bis.



Black Drawing Chalks+Chuck Hipolitho+Fabrício Nobre


Reproduzindo o formato do último Porão do Rock, o Noise reservou a programação de domingo para as bandas locais (com exceção do gaúcho Astronauta Pinguim, que dividiria o palco, lá no fim da noite, com o Diego de Moraes e O Sindicato).

Ainda não havia visto a nova formação da Cine Capri ao vivo, e se o vocal da Georgia Cynara ainda carece de vários acertos para finalmente não comprometer o resultado final, dá pra dizer que o instrumental nunca esteve tão bem azeitado: guitarras na medida, e bateria e baixo encaixados.


Queria ter ficado para ver o Violins, mas a chuva que começou a cair lá pelas 10 e o aceno da segunda feira logo ali, decidiram por mim. Saí do Martim Cererê depois de sentir o bafo quente do teatro Pyguá, aquecido pelo show morno do Barfly, ainda pensando se não seria melhor aguentar e esperar pela apresentação do Domá da Conceição.


Cheguei em casa a tempo de quase me arrepender.


NOT!




3 comentários:

Georgia disse...

Valeu pela crítica, Higão. Não sou cantora, mas venho me esforçando.
Besos,
Geo

thebeethovensyndrome disse...

Cara, achei teu relato ótimo e muito empolgante! Só fiquei estranhado quando você falou do "bruxo chato" do Hermeto. Chato é o Gismonti que não aceitaria um convite desses nesta vida nem na outra... Em fim, abraços.

Pablo Leones disse...

Você perdeu ótimos shows da noite de domingo além do Violins. Eu destacaria o do Umbando e do terrorista da palavra... O do Domá da conceição também merecia uma conferida, no mínimo muito curioso.